É engenheiro eletricista com formação pela UFPE, tem especialização pela Universidade de Toulouse (França) e mestrado na COPPE/UFRJ. Foi Diretor de Energia do Governo do Estado de Pernambuco: Atuou como Assistente da Presidência da CHESF. Assistente da Presidência da Eletronuclear, professor de Produção de Energia Elétrica da UFPE e foi presidente da ABEN - Associação Brasileira de Energia Nuclear E membro fundador da Academia Pernambucana de Engenharia.

O BRASIL E A ENERGIA NUCLEAR

Por Carlos Henrique da Costa Mariz*                                                 

Igual a energia nuclear não  há nenhuma outra forma de produção de energia elétrica que congregue simultaneamente os seguintes fatores: alto fator de capacidade, produção contínua de eletricidade a plena potência com  independência  do clima,  baixíssimas emissões de gases de efeito estufa, vida útil de mais de 60 anos, grande inércia, possibilidade de despacho com flexibilidade  operativa se necessário, e que agrega desenvolvimento tecnológico , industrial e  socioeconômico local e nacional.

 Fica   difícil  entender como o Brasil vem patinando, há  décadas, na expansão do seu programa nuclear para produção de eletricidade, apesar dos esforços realizados no país para desenvolvimento de pessoal , das  instituições ligadas a energia nuclear e das usinas  de Angra 1 e 2 . É inexplicável que Angra 3,  irmã  de Angra 2  que opera desde 2001 com ótimos índices operacionais, ainda  não tenha sido concluída e não se tenha definido um programa de novas unidades nucleares no país conforme os últimos planos de longo prazo, inclusive o Plano Nacional de Energia  PNE 2050   sobretudo quando se consideram    os  benefício e os papeis da energia nuclear  para o sistema elétrico nacional  e para o país.  

Angra 3 é nesse momento  o maior empreendimento de infraestrutura do Brasil, com grande capacidade de alavancar benefícios à sociedade, à indústria e ao sistema elétrico nacional, além de propiciar a geração de emprego em toda cadeia produtiva. Estudo da Fundação Getúlio Vargas – FGV divulgado em fevereiro de 2024 aponta que cada bilhão de reais investidos em produção de energia nuclear no Brasil, reflete-se em um acréscimo de 2 bilhões no PIB nacional e na geração de mais de 22 mil empregos diretos e indiretos no país.

O projeto de Angra 3, tendo como referência  o status atual de Angra 2, incorpora modificações que melhoram, ainda mais, a performance e a segurança da usina. Faz uso da moderna tecnologia digital, incorporando o estado da arte nos sistemas de instrumentação e controle, como também de segurança do reator.

A  conclusão e operação de Angra 3 se reveste também de importância fundamental para a manutenção da capacidade tecnológica e de recursos humanos do país no setor nuclear, adquirida ao longo de várias décadas de investimentos significativos. Permite também a viabilização da nacionalização de todo o ciclo do combustível nuclear, desde a lavra até a fabricação dos elementos combustíveis, posto que o consumo de combustível de Angra 3 somados aos de Angra 1 e 2 trará a escala necessária para a implantação da etapa de conversão, que é a preparação do urânio para enriquecimento, e para a ampliação das cascatas de enriquecimento, propiciando a autossuficiência do Brasil na produção do seu combustível nuclear o que permitirá   usar  as imensas reservas nacionais  de urânio  para  suprir com tecnologia nacional   a expansão de novas usinas nucleares no Brasil, e possibilitar a exportação de urânio enriquecido para a produção de energia elétrica. 

À medida que o setor nuclear nacional fica estagnado e deixa de apresentar perspectivas de futuro para os profissionais da ativa e para os jovens profissionais e estudantes, ele deixa de ser atrativo, com a consequente degradação progressiva do domínio do país sobre a tecnologia nuclear.

Atualmente não  se pode dizer que o sistema elétrico brasileiro vai bem. Ao contrário, o grande volume de energia intermitente, eólica e solar,  construídos nos últimos anos,  tem gerado grandes dificuldades inclusive de atendimento a curva de carga do sistema e custo tarifário . Como consequência a prioridade tem sido a busca de soluções de curto prazo , a maioria de natureza emergencial, porém , médio e longo prazo também  precisam de decisões imediatas para que se possa  sair desse ciclo vicioso e garantir  que o sistema elétrico  evolua no presente e no futuro, com boa segurança energética, baixos custos e mínimo impacto ambiental. É necessário que em paralelo com a decisão da retomada da usina de Angra 3 , venha a sequência de novas usinas  nucleares como uma visão de longo prazo e respectivas ações  de curto prazo,  como uma imediata definição de novos sítios nucleares.

Não se pode desprezar a  capacidade que as usinas nucleares também  têm de trazer estabilidade ao sistema elétrico , seja pela geração de potência reativa, seja por agregar inércia ao sistema, tornando-o  mais resistente às perturbações transitórias. Por sua vez, a entrada  em operação de Angra 3, o que pode ser feito em cinco anos, e sua respectiva injeção de geração firme de 1405 MW no SUDESTE permitirá a continuidade da entrada de fontes renováveis variáveis no Sistema Elétrico Nacional, minimizando  o risco de eventos  como o “apagão” ocorrido em 15 de agosto de 2023 . Na ocasião, a geração das usinas de Angra 1 e 2 contribuiu para estabilizar o subsistema Sudeste-Centro Oeste, onde a recomposição ocorreu de forma mais rápida do que no Nordeste.

Muito se fala de custos de usinas nucleares e pouco se entende da questão. Qualquer empreendimento, particularmente os de grande porte, pode ter seu custo aumentado ou diminuído a depender do processo construtivo adotado e do seu andamento. Na construção de seu programa nuclear, cada país adotou o seu caminho com bons e maus exemplos. De bons exemplos , entre outros, tem-se a  França, que construiu uma  sequência de 58 usinas estandardizadas,  40 das quais, em 10 anos, a Coreia do Sul que seguiu modelo semelhante e mais recentemente os Emirados Árabes que acabaram de concluir, dentro do prazo e do orçamento, a central nuclear de Barakah com quatro reatores nucleares APR-1400 , num total de 5.600 MW, cuja construção ficou sob a responsabilidade de consórcio liderado pela Korea Electric Power Corp.( KEPCO ). 

 Com relação a custos de usinas nucleares, não se pode confundir custo de desenvolvimento do protótipo  , como o AP1000 nos Estados Unidos e o EPR na França , por exemplo, como referência para o custo da energia nuclear. Por esses motivos e também  por verificar que os custos “overnight” de capital para as tecnologias nucleares nos países da  OCDE variam de $2157/kWe de capacidade na Coreia do Sul para $6920/kWe na Slovakia ( WNA – World Nuclear Power ) faz-se necessário muita cautela e uma boa explicação ao se falar de custos de usinas nucleares e seguramente de grandes obras de infraestrutura.

A energia nuclear responde hoje por 30% das energias limpas produzidas no mundo.  A tendência é de alta na expansão,  conforme sinalizações positivas vindas dos Estado Unidos, da Europa, do Japão e  da Ásia. As Big techs apostam em energia nuclear para alimentar data centers. A Amazon e a Microsoft, dentre outras, fecharam grandes acordos em 2024 com usinas nucleares nos EUA. A China é líder na construção de novos reatores e há avanços expressivos na Índia, Rússia, Turquia , Egito e Argentina. Até mesmo a Alemanha vem fazendo estudos para retomar a produção de energia nuclear e religar os seus reatores. Neste instante o Japão acaba de ativar a maior Usina nuclear do planeta capaz de gerar 8.200 MWe de energia, o equivalente a produção de  mais de 12 reatores como Angra 1 , e declara : “É hora de parar de discutir entre energia renovável e energia nuclear. Devemos maximizar o uso de energias renováveis e nuclear”

Diante de tantas evidências como  ser contra a conclusão de Angra 3 e um programa de de novas usinas nucleares no  Brasil?

É imprescindível, nesse momento, um grande esforço nacional para agilizar  a  conclusão da obra de Angra 3 e estruturar  ações  imediatas para a programação de novas usinas nucleares no Brasil.

*Ex Presidente da ABEN – Associação Brasileira de Energia Nuclear; membro da Academia Pernambucana de Engenharia

É engenheiro eletricista com formação pela UFPE, tem especialização pela Universidade de Toulouse (França) e mestrado na COPPE/UFRJ. Foi Diretor de Energia do Governo do Estado de Pernambuco: Atuou como Assistente da Presidência da CHESF. Assistente da Presidência da Eletronuclear, professor de Produção de Energia Elétrica da UFPE e foi presidente da ABEN - Associação Brasileira de Energia Nuclear E membro fundador da Academia Pernambucana de Engenharia.

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